Mudar para a versão de baixo carbono

Impressão 3D pode ser uma maneira ecologicamente correta de contornar tarifas dos EUA

1 de abril de 2025
por Dominic Shales

À medida que uma nova rodada de tarifas entra em vigor sob uma diretiva da administração Trump, o teórico econômico Jeremy Rifkin está oferecendo um antídoto surpreendente: impressão 3D.

Espera-se que o Secretário do Tesouro, Scott Bessent, revele um cronograma de "tarifas recíprocas", visando países cujas barreiras comerciais os EUA consideram injustas. Isso marca uma grande escalada no que Rifkin chama de "a grande guerra tarifária geopolítica do século XXI". Mas, segundo ele, essa guerra pode já estar ultrapassada.

Enquanto os governos discutem sobre navios porta-contêineres e taxas alfandegárias, uma revolução mais silenciosa já está contornando completamente as rotas comerciais tradicionais. "PMEs de alta tecnologia que utilizam tecnologias de impressão 3D/manufatura aditiva podem compartilhar arquivos de software digital para suas linhas de produtos com distribuidores locais a um custo marginal próximo de zero em todo o mundo", explica Rifkin. "E isso muda tudo."

Tarifas não se aplicam ao código

No cerne do argumento de Rifkin está uma mudança fundamental na forma como os bens são produzidos e transportados. Em vez de enviar produtos físicos através dos oceanos, as empresas agora podem enviar arquivos de design digital para instalações locais de impressão 3D. Esses arquivos, ao contrário dos bens que produzem, não estão sujeitos a tarifas.

“Chama-se impressão 3D/manufatura aditiva”, diz Rifkin. “Esta plataforma da Terceira Revolução Industrial está derrubando dois séculos de manufatura subtrativa e, com isso, neutralizando a era geopolítica.”

O potencial econômico é vasto. Os custos globais de logística por via marítima, aérea e terrestre atingirão US$ 12.8 trilhões em 2024, cerca de 11.6% do PIB global. Cortar essas despesas não só reduziria o custo de fazer negócios, como também reduziria drasticamente as emissões. Segundo Rifkin, "simplificar os portos" e reduzir a infraestrutura de logística de carga poderia eliminar até 11% das emissões de gases de efeito estufa.

Lições da pandemia e realidades climáticas

A pandemia de COVID-19 ofereceu uma prévia do que é possível. Um relatório da Deloitte citado por Rifkin constatou que as empresas que utilizam impressão 3D conseguiram "reduzir os prazos de entrega em impressionantes 70%" em comparação com aquelas que dependem de cadeias de suprimentos tradicionais.

Há também a questão da resiliência climática. Como eventos climáticos extremos, como inundações, secas e furacões, causam estragos nas redes logísticas tradicionais, a manufatura aditiva oferece uma alternativa mais flexível e com base local.

“O aquecimento global… está prejudicando o tráfego marítimo, aéreo e terrestre em todo o mundo e minando a logística e as cadeias de suprimentos em um ritmo cada vez maior”, alerta Rifkin.

Da globalização à “glocalização”

Não se trata apenas de uma mudança tecnológica, argumenta Rifkin; trata-se de um novo modelo econômico. O antigo sistema, moldado pela primeira e segunda revoluções industriais movidas a combustíveis fósseis, dependia de gigantes centralizados e verticalmente integrados. Hoje, afirma ele, o impulso está nas pequenas e médias empresas (PMEs) ágeis e de alta tecnologia.

“PMEs de alta tecnologia em uma economia glocal são muito mais ágeis do que as grandes corporações globais”, ele escreve em seu último boletim informativo, “e podem se adaptar mais rapidamente às mudanças causadas, principalmente, por interrupções relacionadas ao clima”.

Essas PMEs já desempenham um papel descomunal na economia global. Na UE, representam 99.8% das empresas não financeiras e mais da metade do PIB. Nos EUA, representam 99.9% das empresas e contribuem com 45% do PIB. Globalmente, as PMEs geram mais da metade dos empregos.

E estão crescendo rapidamente. A manufatura aditiva está se expandindo em todos os setores – de próteses e peças automotivas a modelos arquitetônicos e moradias de emergência. Na Arábia Saudita, o governo destinou US$ 500 bilhões para apoiar a construção impressa em 3D. Dubai pretende que 25% de todos os edifícios sejam impressos em 3D até 2030.

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Sr. Rifkin proferindo o discurso principal no evento do MIPIM. Imagem de https://foet.org/

Um novo modelo para comércio e emissões

Em um exemplo destacado por Rifkin, o arquiteto italiano Mario Cucinella utilizou solos argilosos locais e impressão 3D para criar uma casa sustentável em 200 horas, gerando o mínimo de desperdício. Em vez de vender casas físicas, Cucinella agora pode licenciar seu software de construção globalmente, permitindo que outras pessoas imprimam estruturas sob demanda.

Essa mudança, de "mercados vendedor-comprador" para "redes provedor-usuário", pode redefinir o comércio global. E, como os arquivos de software não estão sujeitos a tarifas, eles são funcionalmente "isentos de tarifas".

As implicações climáticas são igualmente profundas. A manufatura aditiva minimiza o desperdício ao construir objetos camada por camada, em vez de reduzir o uso de matérias-primas. Rifkin observa que esse processo de "resíduo quase zero" oferece uma alternativa de menor entropia à manufatura tradicional, que pode ser alimentada por energia renovável.

As tarifas podem se atualizar?

Alguns céticos argumentam que os governos podem eventualmente tentar impor tarifas sobre arquivos de impressão 3D digital. Mas Rifkin acredita que o gênio saiu da lâmpada.

“Pequenas e médias empresas são onipresentes, o mercado existe e não há como voltar atrás”, afirma. “Estrangular PMEs de alta tecnologia com tarifas acabará fracassando em um mundo mais distribuído e cada vez mais glocalizado.”

Enquanto os líderes globais reforçam as políticas comerciais nacionalistas, a mensagem de Rifkin é um lembrete de que a verdadeira ruptura pode não vir de tarifas, mas da disseminação silenciosa de software, impressoras locais e uma geração de empreendedores preocupados com o clima construindo a Terceira Revolução Industrial do zero.